quarta-feira, 11 de junho de 2008

Serei crescida??



«[…] Eu sei que não sou crescida. Que nunca me hei-de vestir como uma senhora, pôr laca no cabelo, deixar de usar ténis e ver filmes infantis. Quando vejo uma poça de água na rua apetece-me logo saltar lá para dentro, bebo Ovomaltine numa caneca com cabeças de Mickeys e falo com o cão como se ele fosse uma pessoa atenta e paciente. Não sou crescida quando perco mais de uma hora às voltas para encontrar o presente ideal para o meu amor, quando compro resmas de envelopes de correio azul e escrevo às minhas amigas a dizer porque é que gosto delas, ou me sento numa esplanada a devorar com um prazer voluptuoso e indizível um gelado. […] Eu sei que não sou crescida, nem nunca o serei, enquanto me arrepiar com uma música cujos acordes descubro pela primeira vez, enquanto a voz de alguém me fizer tremer, enquanto derramar com excessiva facilidade meia dúzia de lágrimas numa comédia americana de água com açúcar. Enquanto olhar para aqueles que me rodeiam e vir pessoas iluminadas, ou me enroscar no ombro da minha mãe quando a exaustão me mata a vontade de sonhar, enquanto reler vezes sem conta ‘O Principezinho’, enquanto dormir com a almofada dobrada e chapinhar os pés à beira-mar. Posso já não construir castelos na areia nem esperar à janela pelo meu Príncipe Encantado, mas ainda outro dia uma fada me segredou que ele anda por aí, a jogar à bola num quintal qualquer, perdido entre sonhos, palavras e livros como eu, com o coração fechado para o mundo e aberto para a vida.»


«Castelos na areia», Margarida Rebelo Pinto